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| O custo da guerra para os juros |
| Quando a guerra no Irã começou, no fim de fevereiro, já se sabia que a extensão das consequências da guerra dependeria de sua duração. Três semanas depois, ainda não há sinais de que o conflito pode ter uma solução rápida. |
| A navegação no Estreito de Ormuz ainda não foi normalizada, o que significa que diversos produtos seguem presos na região, causando uma restrição de oferta global. |
| E quando esses produtos não chegam ao seu destino, há um aumento de preços. O petróleo, por exemplo, encerrou a última semana acima dos US$ 110, cotação cerca de 80% maior do que a registrada no início do ano. |
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| O dilema vai além das questões logísticas. Ataques a estruturas de produção de petróleo e gás agravam o conflito. Na última semana, a maior instalação mundial de gás natural, no Catar, foi atacada pelo Irã. Os preços do gás na Europa bateram o maior valor desde 2023. |
| O cálculo é que levará cinco anos para reparar as estruturas afetadas e, assim, restabelecer a produção de gás natural – o Catar responde por quase um quinto do fornecimento global do produto. |
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| Em alguma medida, o mundo depende não só do gás natural, mas do petróleo, de fertilizantes e de outros produtos que são produzidos ou transportados pelo Oriente Médio. Por isso, os impactos para a inflação tendem a se espalhar e podem não ser passageiros. |
| É por isso que há um clima de alerta entre os bancos centrais, responsáveis por zelar pela inflação. Se a guerra elevar os custos, caberá a eles tomarem decisões para retomar o controle de preços, o que tende a ser um grande desafio. |
| No Brasil, a guerra no Irã foi um dos temas da última reunião do Banco Central. A autoridade decidiu reduzir os juros em 0,25 ponto percentual na semana passada, para 14,75%. |
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| Vale lembrar que o Comitê de Política Monetária (Copom) havia sinalizado na reunião de janeiro, antes do início do conflito, que poderia começar um ciclo de flexibilização dos juros. |
| Ele seguiu, portanto, o caminho indicado, sob a justificativa de que a permanência da Selic em 15% já cumpriu seu papel de desacelerar a economia e a inflação. |
| Apesar de o Copom ter decidido se mover em um cenário de grande incerteza, a dose de corte de juros foi menor do que alguns analistas esperavam antes do início do conflito, o que indica um grau de cautela no BC. |
| "O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil”, escreveu a autoridade. |
| Em outras palavras, o BC ainda não descarta uma alta duradoura dos preços por causa da guerra. As projeções de inflação da autoridade, inclusive, pioraram um pouco em relação à última reunião. |
| Apesar disso, ao avaliar o comunicado do Copom, encontramos sinais de que a Selic deve continuar a cair. |
| Se o conflito esfriar em alguma medida, aliviando a pressão sobre os preços no exterior, o BC pode ganhar confiança para ampliar a dose dos cortes para 0,5 ou 0,75 ponto percentual por vez. |
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| No entanto, uma vez que a guerra ainda parece distante de uma solução, não dá para descartar a possibilidade de o cenário se tornar mais adverso. Caso o conflito mantiver os preços elevados, ou até causar uma alta adicional, o BC pode se ver obrigado a promover menos cortes do que o esperado. |
| | Nesse caso, a Selic pode ficar mais próxima do nível que ela está hoje (14,75%) do que do nível que os analistas de mercado esperam para o fim do ano (em torno de 12%). |
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| O nível dos juros será, em grande parte, definido pela duração e pelo estrago da guerra, algo ainda impossível de prever. |
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